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            O ano já está no seu segundo mês e eu ainda tenho que colocar em dia uma série de vinhos degustados no apagar das luzes de 2009. Neste ano, venho provando muito, até em função da escolha dos vinhos que farão parte do portfólio da Vino & Sapore, mas sobre esses vinhos falarei mais ao longo do mês.

            Pendentes do ano passado , entre outros, dois vinhos especiais que acabaram entrando no rol de meus Melhores de 2009, mas sobre os quais ainda não tinha conseguido tecer quaisquer comentários. Foram o Cremant Aimery Cuveé Brut 1531 Rosé e o AVE Premium Malbec, duas ótimas opções para você que ainda não teve a oportunidade, colocar em sua lista de vinhos a conhecer.

O Aimery Cuveé 1531 Rosé, um Cremant de Limoux, foi uma indicação do Megalvio, amigo de Santa Catarina que garimpou esse espumante rosado lá no Rio de Janeiro no ano passado. Ao ler meu post com o resultado do Desafio de Espumantes Rosados, teceu comentários sobre este rótulo que tinha tido uma excelente avaliação pela revista alemã Stern (dica do Rogério Rebouças) e pelo qual tinha caído de amores. Fiquei curioso e pedi ao Claudio (Le Vin au Blog) que é do Rio e vinha para um almoço de final de ano dos enoblogueiros (que acabou virando uma esbórnia enófila) que me trouxesse uma garrafa. Bem-dito Megalvio, que delícia, uma grande surpresa e uma pena que não soubesse antes já que seria páreo duro a bater naquele Desafio. É todo muito equilibrado, fresco, bom corpo e uma perlage estupenda abundante e persistente. Na boca os tradicionais sabores de morango e cereja colocados de forma sutil e harmoniosa, muito bem balanceado e de um frescor enorme. Levei para um almoço de ex-colegas e amigos de empresa tendo sumido muito rapidamente e nem foto tenho para contar a história tendo que recorrer ao site do Rogério. É importado pela rede de supermercados Zona sul e custou por volta dos R$49,00. Parece que tem também no supermercado Super Nosso em BH. Nós paulistas com nossa absurda, nociva e horrenda carga tributária imposta pelo governo, a tal de ST que deveria mesmo é chamar-se AT (antecipação tributária), não temos o privilégio e se o tivermos não será a esse preço, uma pena! Megalvio, grande dica meu amigo e o rótulo ganhou mais um amante!

AVE Premium Malbec 2007, esse é um projeto de Italianos que chega agora ao Brasil pelas mãos de Berenguer Imports de Curitiba, gerenciada pelo amigo Charlston Dalmonico. É um vinho diferenciado, um Malbec com aromas e complexidade da toscana, um vinho potente, masculo, mas delicado ao mesmo tempo. Incrível o que eles fizeram com os vinhos usando as mesmas cepas de todos! Cem por cento Malbec da região de Perdriel, fruto de um projeto de dois jovens italianos de berço toscano, é um vinho austero, firme que ainda precisa de cerca de uma hora de decanter para mostrar todo o seu enorme potencial. Rico em sabores, taninos maduros, grande estrutura, um vinho que marca presença mostrando uma personalidade muito própria que surpreende os mais experimentados. Um Malbec para os amantes dos bons tintos italianos, um dos Top Values da Wine Spectator em 2009 e um vinho que vale a pena ser conhecido. Eu que, normalmente, fujo dos grandes e potentes vinhos argentinos, me curvei a esse e recomendo aos amigos, um vinho que aqui em Sampa deverá estar por volta dos R$75,00 e em Curitiba um pouco menos. Certamente um vinho que entrará, uma hora, como surpresa numa degustação ás cegas de vinhos italianos, aguardem!

Salute e kanimambo

        Muitas vezes ficamos quebrando a cabeça, criando os mais complexos pratos e buscando as mais incríveis harmonizações com um vinho à altura. Na maioria das vezes, no entanto, o menos é mais e aqui está um belo exemplo disso, um simples arroz de bacalhau com brócoli e um saboroso e macio merlot da Villaggio Grando de companhia.

         Os vinhos da Villaggio Grando me são muito apetecíveis e não é de hoje tendo já provado toda a sua linha de produtos que agora, com uma política mais adequada de preços, valem quanto pesam. Este Merlot 2007  é de cor rubi, média  concentração e leve halo. Delicado aroma frutado, ameixas,  chocolate, toques químicos e defumado  agradável.  Alta acidez, corpo médio e persistência longa, final de boca elegante, taninos finos e muito agradável. Já o bacalhau; desfiado e refogado com o brócoli juntando-se no final o arroz que cozinhou com parte da água advinda da última dessalgada  (24 horas na geladeira com 4 trocas) do bacalhau, é um prato fácil e rápido de ser elaborado, muito saboroso e leve mesmo que regado com bastante azeite do bom. O equílibrio foi perfeito e recomendo aos amigos tentarem esse encontro para confirmar como este mundo da enogastronomia, graças a Deus, não é nada binário. Aqui matemática não explica, mas dois mais dois não somam quatro e sim muito mais.

         Com 600grs de bacalhau desfiado, comida para cinco e eu, obviamente, comi  mais do que devia, porém ainda restou esse pratinho que matei solito no dia seguinte. Ainda sinto o gostinho e olha que já faz mais de uma semana!!!

Salute e kanimambo

            Nesta segunda participação do amigo e enólogo Miguel  Almeida em Uvas & Vinhos, ele se debruça sobre uma importante cepa no corte dos vinhos do Douro e Dão assim como do Alentejo. Já falamos aqui sobre a Tempranillo, um dos muitos nomes (eu conheço oito) desta cepa ícone da península Ibérica,  porém não sob o prisma de um enólogo e tão pouco deste lado da fronteira onde o clima, cultura e terroir são outros. Vejamos  o que o Miguel tem a nos dizer antes de ter que se ausentar pelos próximos três meses quando estará cuidando dos vinhos da Fortaleza do Seival e Almadén da safra de 2010 que nós só conheceremos bem mais lá para a frente. Prometo trazer as impressões dele sobre esta safra assim que der.

A difícil casta dos vinhos ícones da Ibéria – Tinta Roriz, Aragonez ou Tempranillo

               A Tinta Roriz embora represente 25% da superfície vitícola portuguesa, a custo é tida como uma casta de excelência. Segundo opinião quase unânime juntos dos enólogos a trabalhar no Douro, produz muito, exige muitas intervenções em verde, a maturação processa-se irregularmente até no mesmo cacho, em suma, é uma casta difícil de trabalhar, principalmente em viticultura de montanha, onde existem muitas exposições solares e diferentes altitudes. Em Portugal é a base de suporte para um blend de vinho apto a envelhecer, lembro o Barca Velha 1999, com cerca de 50% de Tinta Roriz, 40% entre Touriga Nacional e Touriga Franca e 10% Tinto Cão, estagiado por 18 meses em meias-pipas novas de carvalho francês, e o Pêra-Manca 2003, 50% Aragonez e 50% Trincadeira, tradicionalmente estagiado por 18 meses em tonéis de 3.000 litros com mais de 50 anos.

             Em Espanha o cenário é completamente diferente, na Rioja, considerada a sua origem, 57% das vinhas, mais de 27.500 hectares, estão ocupados com Tempranillo e nos vinhos da Ribera del Duero ela é quase sempre componente único. Da Rioja trago ao espírito o cultural e clássico Viña Tondonia Tinto Gran Reserva 1991, Tempranillo (75%), Garnacho (15%), Mazuelo e Graciano (10%), envelhecido 9 anos em barricas, com 2 trasfegas por ano, feitas à mão. Da Ribera del Duero o portentoso Pingus 2004, Tempranillo (100%) com supervisão biodinâmica e 100 pontos de Robert Parker.

           Para ter elegância, acidez e fruta fresca num Tempranillo precisamos de um clima ameno. Mas para ter elevada concentração de açúcares fermentescíveis e cor intensa da sua casca espessa precisamos de calor. Na Ribera del Duero este aparente contraditório é possível devido ao clima continental e às médias altitudes de até 800 metros. Na Rioja as elevadas temperaturas e as baixas altitudes originam excesso de fruta em compota e baixo teor em ácidos, esta falta de frescor é agravada pela aparente predisposição genética da Tempranillo para absorver potássio, provocando o aumento do nível de sais de ácidos orgânicos, com a conseqüente subida do pH. Neste caso a solução passa pelo blend com uvas de maior teor em ácidos orgânicos. 

Comportamento vitícola

A Tinta Roriz é uma variedade:

  • com uma fertilidade apta em cachos grandes (como na foto abaixo das vinhas na Casa dos Gomes no Dão).
  • de alta produtividade (8 a 18 ton/ha), variando muito com o tipo de solo, o clima e o clone.
  • aneira, alterna com os anos, ou seja, em bons anos, produz vinhos encorpados, retintos, muito aromáticos, míticos e em anos maus produz apenas vinho.
  • de muito fácil condução da copada.
  • bastante sensível ao Oídio e exageradamente sensível ao Míldio.
  • de mediana susceptibilidade ao stress térmico e hídrico (em anos quentes e secos é necessário reduzir de modo drástico a área foliar das videiras e o número de cachos, por forma a baixar o consumo de água).
  • precoce com curto ciclo de maturação.
  • prefere solos profundos, bem drenados e com reduzida disponibilidade hídrica, uma vez que elevado teor de água provoca atrasos no pintor e redução da qualidade.

       Como curiosidade, em 1988 e no berço riojano, fruto de uma mutação natural por factores ambientais desconhecidos, surgiu a variedade Tempranillo Blanco numa videira de Tempranillo onde todas as varas originaram cachos de casca escura, excepto uma que produziu cachos de pequenas bagas esverdeadas. A Tempranillo Blanco viu aumentada o número de indivíduos por multiplicação vegetativa daquela única vara.

 Comportamento enológico

           Quando originários de vinhas de baixo rendimento, 6 a 8 ton/ha, os vinhos de Tinta Roriz são sempre de cor vermelha intensa, nariz de ameixa e frutos silvestres, tais como, groselha, framboesa, mirtilo, amora,  que se tornam mais complexos com a evolução em barrica e/ou garrafa. As principais características em boca são a textura envolvente, macia, sedosa e aveludada, apoiada em firmes taninos, e o bom equilíbrio de acidez e álcool. Quando o vinho estagia em carvalho novos aromas surgem: baunilha, coco (típicos do carvalho americano), especiarias, anis, charuto (típicos do carvalho francês).

          Com rendimentos de 10 ton/ha para mais, os vinhos adquirem uma coloração menos intensa, mais aberta, o nariz simplifica, quando jovem, o vinho vive muito dos básicos e muito etéreos aromas fermentativos frutados, tornam-se menos encorpados, mais ligeiros e de estrutura média, geralmente, estes são vinhos fáceis, próprios para o consumo diário. Nestes vinhos a opção por madeira para nada mais serve do que complementar a estrutura e, por vezes, melhorar a plausível deficiência aromática.

          Varietal ou blend? A decisão terá que ser tomada com base na vinha e no vinho. Para ser um varietal harmonioso e prazeroso terá de ser obtido de uva sã irrepreensivelmente madura, quer ao nível aromático, quer fenólico, e com um óptimo equilíbrio de açúcares e ácidos. Como isto das UVAS & VINHOS não é tão fácil como escrever, quando não acontece, a Tinta Roriz, ou melhor, os seus espessos taninos são os alicerces e os pilares fundamentais da estrutura de um lote de vinho preparado para viver por vários anos.

         Se a Touriga Nacional é o nariz, a Tinta Roriz é a boca do vinho. A alta carga tânica influencia também a estabilidade corante do vinho, normalmente, a cor deste vinho mantém-se bem ao longo do envelhecimento. Em resumo, a Tinta Roriz é uma casta polemica, capaz do pior, isto é, produzir vinhos bastante fracos, de cor insuficiente, taninos agressivos e sabores herbáceos, devido à sua exagerada capacidade produtiva. Mas capaz do superlativo, ou seja, produzir vinhos únicos, memoráveis quando controlados todos os fatores que interferem na produção: escolha do solo, do porta-enxerto, fertilização equilibrada, adequada condução da sebe vegetativa e monda de cachos ao pintor, se necessário. O resto o enólogo orienta!

Harmonização – eis o que o Álvaro Galvão (Divino Guia) disse sobre a harmonização do tempranillo e que resolvi repicar aqui já que, a principio, falamos da mesma cepa: ” Tem uma versatilidade enorme, pois se fazem vinhos com ela sem madeira, com madeira, em cortes, e todos muito gastronômicos, devido à sua acidez balanceada e taninos quase sempre domados. Carne de mamíferos e aves, de preferência as mais rústicas como caças, galinha d’angola e faisão, em geral vão bem com ela. Coelho à caçadora e lebre assada também se harmonizam. Experimente uma morcella assada, que seja levemente apimentada e muito aromática, vai ficar muito bom.”  A essas sugestões do Álvaro, eu adicionaria um prato de vitela assada com batatas, prato tipico da região do Dão ou arroz de pato, uma iguaria portuguesa!

Rótulos a Provar – Não provei vinhos varietais desta cepa em Portugal, falha que tenho que corrigir este ano, porém os blends são inúmeros para serem aqui listados. Dos varietais que não provei, sugiro conferir; Têmpera 2001 da Quinta do Monte d’Oiro em Alenquer, do Alentejo (Aragonês) os vinhos da  João Portugal Ramos, Cortes de Cima e Esporão / do Dão o  Quinta dos Roques Roriz  e do Douro o Quinta de la Rosa e Quinta do Vale da Raposa dueto em que a Roriz é protagonista. Esbalde-se nos blends com Roriz, são muitos e muito bons. Começe por rótulos mais econômicos como o Quinta de Cabriz Colheita (Winebrands) do Dão ou Loios (Casa Flora) com preços abaixo de R$30,00 que são uma ótima opção de gama de entrada e vá subindo a escada degrau a degrau. Eis uma curta listinha para você curtir; 

Altano (Mistral) do Douro, em especial o Biológico, Herdade do Peso Colheita (Zahil) outro do Alentejo e o Quinta de Cabriz Reserva (Winebrands) mais o Duque de Viseu (Zahil) todos na faixa entre R$50 e 60,00 valendo cada centavo e sobra troco em satisfação, muita! Altas Quintas Crescendo (Decanter) do Alentejo, Quinta Mendes Pereira Garrafeira (Malbec do Brasil) e Casa de Santar Reserva (Winebrands) do Dão, Post Sriptum (Mistral) do Douro e muitos mais, inclusive os vinhos do porto, para você não se cansar nunca. Diversos estilos e sabores com muita satisfação e não esqueça do Quinta do Seival Castas Portuguesas (com a mão do Miguel) o solitário representante brasileiro.

Os prazeres serão imensos, eu garanto.

Salute e kanimambo.

          Eis algumas frases de famosos e outros nem tanto, porém todas nos induzem a uma certa dose de reflexão, preferencialmente com uma taça de bom vinho na mão.

  • Agora que a velhice começa, preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo e, sobretudo, a escapar do terrível perigo de, envelhecendo virar vinagre. – Dom Helder Câmara
  • “Não fico surpreso que as pessoas não identifiquem estes aromas todos nos vinhos que compram. Eu mesmo não sou capaz de reconhecê-los. Aliás, acho muito aborrecido. Não estou interessado nisso, e sim na personalidade do vinho.” Aubert de Villaine, proprietário da Domaine de Romaneé-Conti.
  • “Todo o grande vinho é caro, mas nem todo o vinho caro é grande!” João Filipe Clemente
  • Uma barrica de vinho produz mais milagres que uma igreja cheia de Santos. Provérbio Italiano
  • Vinhos são como os homens. Com o tempo, os maus azedam e os bons apuram.Cícero, filósofo Romano
  • A Vida é curta demais para beber vinho de má qualidade – Hubrecht Dujker
  • Vinho melhora com a idade. Quanto mais velho fico, mais aprecio o doce néctar. Anônimo
  • Cozinho com vinho. Às vezes até o uso na receita. W.C. Fields
  • Se a vida com vinho, mulheres e música se tornar demasiado pesada, pare de cantar. Anônimo.
  • Um bom vinho é poesia engarrafada. Robert Louis Stevenson
  • Na água refletimos nossa própria face. No vinho visualizamos a alma de outrem. Provérbio Francês.
  • Quando convidar um amigo para jantar. Sirva-lhe seu melhor vinho. Se convidar dois, seu segundo melhor vinho já está bom. Henry Wadsworth Longfellow
  • Um valsa e um vinho, sempre pedem bis. Johan Strauss
  • Não se deve jogar fora aquilo que foi feito para beber. Kimmi Raikonen
  • Na equação de harmonização, tanto quanto o prato, temos que pensar no momento e nas pessoas. João Filipe Clemente
  • Abrir uma garrafa é um pouco como abrir um livro. Nunca temos a certeza do que iremos encontrar. Anônimo
  • No que se refere a vinho, sempre recomendo que se joguem fora tabelas de safras e manuais investindo num saca-rolhas. Vinho se conhece mesmo é bebendo! Alexis Lichine
  • Você não pediu para nascer e, salvo rarrissímas exceções, morrerá contra a sua vontade. Então, trate de aproveitar o intervalo entre esses dois momentos da melhor maneira possível, beba bons vinhos com bons amigos.  João Fillipe Clemente
  • A companhia errada pode avinagrar o melhor dos vinhos. Anônimo
  • Vinho é a vingança masculina ao sapato da mulher. Sempre cabe mais uma garrafa na adega! Anônimo
  • Ao contrário dos relacionamentos pessoais e profissionais, no vinho a infedilidade é essencial. João Filipe Clemente
  • A melhor maneira de introduzir amigos ao mundo do vinho é abrir garrafas melhores do que eles estão acostumados, mas só falar de suas virtudes caso lhe seja perguntado. Jancis Robinson
  • Ouço dizer que os amantes do vinho serão castigados no inferno. se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno, o paraíso deve estar vazio. Omar Khayan (Poeta, matemático e astrônomo Iraniano – 1130)

Salute e kanimambo

           Especificamente o Emporio Vila Buarque numa degustação, de amigos blogueiros armada pelo Jeriel e coordenada pelo Beto que escolheu o local, com os vinhos alemães da Dyade52  de uma região pouco conhecida entre nós, Baden-Württenberg. Dos vinhos falo mais adiante, mas me lembro ter topado o convite sem sequer ter idéia de onde era essa tal de Vila Buarque que, depois, vim a saber ser num recanto 1/3 Santa Cecília, 1/3 Higienópolis e 1/3 Centro, numa região que há tempos atrás era habitada por uma “fauna” diferenciada (rsrs). Rua Major Sertório 561, num local fora do jet-set estrelado como Itaim, Pinheiros, Vila Madalena, Jardins, etc, por detrás de uma fachada despretensiosa floresce uma casa diferenciada, simpática, aconchegante de interior muito bem aproveitado mostrando bom gosto em todos os detalhes, o Emporio Vila Buarque. Um misto de empório, enoteca, bistrot e café de muito boa qualidade tocado pelo simpático e hospitaleiro Marcelo di Morais, que faz com que rapidamente nos sintamos em casa, uma grata e agradável surpresa.

            Há poucos dias tinha encontrado com um amigo e conversávamos sobre novos empreendimentos e como o carisma e simpatia das pessoas é essencial para transformar um eventual bom negócio, num de sucesso. Pois bem, aqui está um exemplo disso já que o carisma e simpatia do Marcelo di Morais, um dos sócios da casa, é singular e faz a diferença fazendo com que sintamos como se o conhecessemos há anos. Bela descoberta Beto, pelos vistos não é só nos vinhos que você garimpa pepitas inigualáveis. Bem, mas chega de falar do Emporio do Marcelo, afinal viemos aqui para conhecer os vinhos alemães da Dyade um cooperativa produtora de alguns vinhos interessantes. Já tinha provado seus vinhos no estande deles na Expovinis do ano passado e me lembrava de um tinto que tinha me chamado a atenção na época, então fui curioso para esse reencontro “mit meinen freunde” Lemberger und Daniel (Vinhos de Corte), Cristiano (Vivendo Vinhos), Jeriel (Blog do Jeriel) e Beto (Papo de Vinhos) todos com links aqui do lado.

             Como já comentado por alguns colegas presentes, o Pinot Grigio se apresentava algo evoluído com uma cor dourada de pouca tipicidade da casta e mostrou na boca uma certa agulha fazendo lembrar os vinhos verdes portugueses. Claramente um vinho que não se apresentava em sua plenitude. Tomamos mais quatro vinhos sendo dois Rieslings, um Pinot noir e um Lemberger, aquele mesmo que me tinha chamado a atenção na Expovinis.

            Da linha Dyade 52 Winemaker´s Edition tomamos dois vinhos; o Riesling 2008, um vinho saboroso de boa tipicidade porém sem atrativos maiores que marcassem sua presença na taça e o Pinot Noir que possui uma cor muito bonita bem característica da cepa como aliás é o nariz mostrando-se muito suave e algo ligeiro na boca. Vinhos na faixa de R$60 nas lojas.

            A linha que mais me despertou interesse e realmente marcou presença, foi a  Dyade52 Connoisseur’s Choice com um Riesling realmente muito bom mostrando um floral sutil no nariz e na boca aquela mineralidade muito característica dos bons riesling alemães, muito balanceado, bom volume de boca sem ser denso, teor de álcool civilizado, muito frescor e um final de boca apetitoso, longo que convida á próxima taça, um belo vinho. O Lemberger, por outro lado, é o que podemos chamar de um vinho exótico, diferente que certamente atrairá aqueles amantes do vinho que gostam de sabores menos previsíveis, com aromas tostados e nuances chocolatadas. Na boca mostra algo de salumeria, médio corpo, sóbrio, taninos finos presentes e um final agradável e intrigante que agrada sobremaneira. Esta linha tem um preço ao consumidor estimado em cerca de R$125,00 o que me parece um pouco puxado para os vinhos apresentados em função da vasta concorrência no mercado, mas são vinhos que recomendo.

          De resto, voltei ao Empório no Sábado, desta feita com a família, para curtir um gostoso, descontraído e agradável almoço fora do tradicional eixo dos jardins em Sampa. Uma das boas dicas da semana e descobertas deste agradável encontro de vinhos alemães, blogueiros amigos e o Emporio. Vielen dank Fabiana, Jeriel, Beto und Marcelo! Ein sehr interessanter abend mit shöne weine und gute freunde. Tchuss!

Prost (já sei Cristiano, Sena!!), kanimambo e seguimos nos encontarando por aqui.

          Como disse anteriormente, em breve abrirei uma loja aqui na Granja Viana. Não tinha nome, mas agora já tem e, apesar de ter preferido que fosse Vinhos & Sabores, o nome já estava tomado então o caminho foi não fugir muito disso. Recebi hoje as chaves da loja que, como pode ser visto pela foto, está zerada. Muito trabalho pela frente para transformar o local no recanto aconchegante, desencanado e repleto de pequenas pepitas garimpadas ao longo do tempo, afora as opções mais tradicionais disponíveis em nossa vinosfera.

         Caso haja interesse dos amigos em ver como caminha esta gestação, estou disponibilizando um blog com o “Making Of” de Vino & Sapore. Tentarei postar sempre que haja alguma importante novidade e o projeto for ganhando corpo. Será uma tentativa de formar, desde já, um vínculo com os potencias apreciadores de vinhos na região. Aproveitando o ensejo, a loja veio com a mesa maravilhosa baixo que, lamentavelmente, não encaixa em meu novo projeto. São 5,70 metros por 1,10 de tábuas maciças de madeira de demolição recuperada. Caso tenham interesse na compra (sem as cadeiras) ou saibam de quem tem interesse, toda a ajuda será bem vinda e, para quem conseguir a venda, um ‘regalo’ especial de agradecimento pela ajuda; uma garrafa contendo uma garrafa do incrível Tignanello 2005 ou do estupendo Viña Sastre Pago de Santa Cruz 2003 (a escolher). Quem tiver interesse pode me contatar através do e-mail diadoleitor@jfc-consult.com.

Vejo vocês por aqui e, se puderem me ajudar na divulgação da Vino & Sapore, ficarei eternamente grato. Salute e kanimambo

          Poucos dias repletos de muita festa e excessos, mas como diz meu cunhado, o problema não é o que você faz, come ou bebe entre o Natal e o Reveillon, mas sim entre o Reveillon e o Natal. Neste caso, até que o cunhado foi sábio e tem toda a razão, mas de qualquer maneira deixem eu compartilhar com vocês as experiências enogastronômicas deste final de ano.

         Para começar, o Natal foi algo diferente com maior parte da família viajando então optamos por fazer algo mais singelo e sem a mesma fartura excessiva que cometemos todos os anos. De ceia fomos de algo bem tradicional português, Bacalhau á Brás (como deve ser, com as batatas fritas na hora e moles misturadas na hora de servir e antes de colocar o ovo, nada de batata palha de saquinho!). Para acompanhar, duas opções um tinto que achava que seria over e foi (Quinta das Marias Garrafeira), e um branco potente do Alentejo com, salvo engano, cerca de 14% de teor alcoólico o que, convenhamos, é um pouco alto para um branco apesar de bem equilibrado, é o Herdade Grande Colheita Selecionada 2008, um belo vinho branco elaborado com antão Vaz e Arinto, castas tradicionais da região. Leve floral no nariz, frutas tropicais e algo vegetal, na boca mostra-se cheio, volumoso, porém muito fresco com ótima acidez e notas minerais tendo-se adequado bem ao bacalhau formando uma boa parceria.

         No o almoço de dia 26, falou mais alto a parte italiana da família e não poderia faltar a pasta acompanhada por pernil que reguei com o Quinta  das Marias Garrafeira 2005 , que trouxe de Portugal e ainda não está disponível por estas bandas,  aberto no dia anterior e já comentado aqui.

               Para o reveillon, decidimos que não faríamos nada em casa e acabamos por decidir passar a meia noite numa cantina italiana nas Perdizes. Nada muito fancy, boa comida variada de cantina e a família toda finalmente reunida pela primeira vez neste final de ano. Como sempre, a premissa maior é harmonizar o vinho com as pessoas e com o momento, então optei por algo que não complicasse, mas que combinasse bem com os pratos disponíveis. O Bonachi Montepulciano de Abruzzo 2008, vinho bem redondo, apetecível, fácil de gostar e bom de harmonização com os tradicionais pratos da culinária italiana, cumpriu fielmente seu papel não decepcionando assim como o Salton Reserva Ouro, sempre um espumante coringa e muito bem feito.

              No almoço de dia primeiro no entanto, em um grupo de gente de menor número em casa, tempo para me esbaldar e tirar alguns néctares da adega. Abri com um Piper-Heidsieck Rosé seguido por um Cheval des Andes 2002 e terminamos com um Late Harvest da Esporão 2007.

Piper-Heidsieck Rosé Sauvage, é um espumante muito bom fazendo jus ao nome, mostrando aquele frescor e vivacidade característico dos espumantes da casa. Este, com os tradicionais aromas de cereja, algo de morango muito sutis no olfato enquanto na boca é vibrante, jovem sem grande complexidade porém de um frescor incrível e uma perlage muito fina e elegante. Uma baita forma de iniciarmos o almoço e a comprovação do porquê os champagnes representarem o que representam em nossa vinosfera, uma dádiva dos deuses!

Cheval des Andes 2002, um dos grandes vinhos da Argentina de acordo com a critica especializada, que tirei da adega onde já repousava faz um quatro ou cinco anos, pois achei que seria a companhia adequada para o Bife Ancho na brasa com arroz biro-biro, prato com que decidi iniciar o ano. Tá, a carne não era a do Varanda (um pouco de excesso de gordura), mas garanto que estava uma delicia. Realmente um corte que me encanta canta vez mais e a escolta do Cheval foi perfeita pois já havia amaciado. O vinho, corte de Cabernet Sauvignon, Malbec e Petit Verdot, talvez já tivesse até passado um pouco de seu auge, porém mostrou uma complexidade digna de suas origens enólogicas francesas apesar de ter nascido em Mendoza. Não soubesse, às cegas apostaria num Bordeaux de boa idade, macio, complexo, grande riqueza de sabores, fruta madura, boa acidez, madeira bem integrada, taninos doces, finos e elegantes emoldurando a carne com muita classe. Um belo vinho, só acho um pouco exagerado no preço aqui por nossas bandas. Sugestão, vinho a ser tomado com cerca de seis anos de idade quando, penso, deve atingir seu pico de evolução.

Late Harvest Esporão 2007, a mão certeira de David desta feita num vinho de sobremesa com base num lote especial de uvas semillon colhidas pela técnica de Cordon-Cut em que o cacho é cortado do cordão principal da vinha mas deixado na planta por alguns dias quando, sem alimentação, ela desidrata rápidamente ganhando doçura sem perder a acidez. Bem, não sou enólogo, mas achei que ele acertou a mão, mesmo que para meu gosto o vinho pudesse ter um pouco mais de acidez para melhor equilbrar o alto açúcar residual. Acompanhando uma torta caseira de limão, no entanto, mostrou-se ótimo companheiro sendo um dos bons vinhos de sobremesa provados neste ano passado. Aproveitando vai uma dica para quem quiser comprar. o preço costuma rondar os R$70 a 80,00, mas vi no Makro speciale e o Rei do whisky por quase metade, algo em torno de R$45!

         Foram dias calmos, após um mês de árduas negociações para a compra da loja (Assemblage) e acerto de detalhes com os proprietários do imóvel. Depois da tormenta a bonança, ou pelo menos assim dizem, então senti-me tranqüilo vislumbrando um 2010 cheio de desafios, mas com um horizonte que há muito não via. Os vinhos, os pratos a companhia tudo transbordava paz, alegria e bem estar. Que  2010 seja assim, um ano de conquistas e pleno de fluídos positivos para todos.

Salute e kanimamno.

breno3Escrevi um artigo sinuoso e pouco afirmativo em dois tempos sobre a propaganda de produtos supérfluos e ligados ao prazer para a revista “Free Time”. Reproduzo, reviso e complemento o segundo tempo dela, neste generoso espaço do “Falando de Vinhos”, por supor que são dois veículos dirigidos a públicos diferentes, por mais que haja coincidências de leitores. Aviso que é um texto que mais parece um rascunho, que provavelmente mereceria apenas a atenção dos ratos e das traças, se fosse ele de papel e não um material assim tão etéreo como o do navegador virtual que lhe carrega de passagem.

Pois bem, sem mais firulas, no primeiro tempo, depois de fazer um arrazoado mais ou menos longo sobre as dificuldades que sofre um ícone aristocrático para anunciar-se como produto de mercado, escrevi o que vem abaixo:

 A Propaganda do vinho

          Acabei o artigo anterior refletindo sobre as dificuldades que o mundo da comunicação tem para anunciar produtos que saem do nicho restrito a produtos de elegância e excelência para cair na real do consumo diário. Chamei a atenção para o vinho, por ser, no meu entender, o desafio da hora.

         O vinho é um produto fora de padrão por várias razões que merecem uma pequena história – junto com a cerveja, é fruto de fermentação conhecida há mais de cinco milênios. É produzido e consumido por diferentes culturas de diferentes origens. Está na restrita família dos produtos bíblicos que se manteve até os nossos dias. É fruto da terra e do trabalho do homem, como o azeite da oliveira, o pão do trigo e cerveja de cereais. Qualquer amassamento de uva seguido de um processo de fermentação natural ou induzido, proposital ou acidental, pode ser chamado de vinho, o que lhe dá uma grandeza desmedida – queiram ou não os seguidores de algumas seitas protestantes e fundamentalistas, que não sabem como impedir o consumo do álcool entre os seus seguidores, na medida em que ela está presente em tantas referências do Velho Testamento Biblíco. É verdade que este vinho bíblico não era um produto comum, mas “casher”, diferenciado na manipulação, na vinificação e no uso sagrado, como me explicou Anete R. Ring, importadora de vinhos e azeite de Israel no Brasil. O vinho era cozido, ganhando, aos olhos dos responsáveis pelos antigos mandamentos, sua divinificação, pois manipulado de modo a destacar-se do vinho feito acidentalmente e sem qualquer ritual… Ou seja, o vinho tribal, pagão.

          É conhecido enquanto produto por todo o mundo ocidental, sendo que boa parte desta população tem em seu DNA algum parentesco – mesmo que distante no tempo e no espaço – com algum produtor de uvas e vinho. É, portanto, um produto assimilado, fácil de determinar, com o uso bem definido?! Sim, quando se pretende apenas falar do vinho em geral. Não, quando se pretende definir um nicho e menos ainda quando se quer lançar um produto específico. Pois o vinho é um produto manhoso que se esconde sobre esta capa de simplicidade. Há circulando no Brasil, mais de 20 mil rótulos diferentes, dos quais ao menos 2/3 foram produzidos na América Latina, quase 1/3 nos países do Velho Mundo e a pequena parcela restante vieram da Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e América do Norte, além de alguma coisa vinda do Oriente Médio. Entre estes 20 mil rótulos, se encontra produtos que custam para o consumidor final, menos de R$10,00 e há outros que custam mais de R$10.000,00, todos carregando o título de vinho, por mais que alguns deles sejam frutos de procedimentos, que não passariam (como não passam) por controle de qualidade mais rigoroso, como o da Comunidade Européia.

        Dito isso, o briefing criativo para a agência de publicidade que pretende apresentar um deles ao consumidor, começa a se fechar com informações que localizam o produto no mercado restrito dos vinhos. Cada um está numa posição diferente entre mesmos produtores. Pesquemos um exemplo concreto: o respeitado vinicultor das rendondezas de Alba no Piemonte italiano, Pio Cesare, produz Barolos e Barbarescos de grande qualidade, orgulhosos com os 42 meses que passam em madeira muito superior às exigências da legislação que controla o uso de suas denominações, ou seja, ao menos 36 meses para o primeiro e 30 meses para o segundo em madeira, além de dois anos em garrafa antes de ser comercializado. Com a uva Nebiollo, a mesma utilizada para fazer os mesmos vinhos nobres citados acima, ele faz um vinho catalogado como Langhe Nebiollo, mais despretensioso e competitivo.

         Como sua comunicação deve se comportar, desde o rótulo até o anúncio? Deve pegar carona na história e tradição da casa centenária e, com isso, eventualmente tirar a nobreza daquele ou deve – ao contrário – mostrar uma face mais moderna e mercadológica, como um agiornamento que permite o consumidor a usufruir de um Pio Cesare num almoço normal de dia de semana, coisa inviável até então, visto que o grande vinho piemontês exige ao menos uma hora e meia de respiração, o que faz com que ele seja pouco consumido por entendidos em restaurantes, sem contar, é óbvio, que seu preço, por si, inviabiliza o seu acesso aos mortais mais comuns. Poderíamos dizer então que o Pio Cesare deveria fazer então um empréstimo de prestígio dentro de sua própria casa. Deveria dizer “Langhe Nebiollo. Finalmente um Pio Cesare para o seu almoço”. Nada melhor, um produto que sai da linha da nobreza e entra com grande estilo no mundo das mercadorias pós-aristocratas. Um vinho moderno, com know-how e sisuda seriedade. Um vinho que tem linhagem, estirpe, sem ter que se cercar de artifícios visuais que criem esta imaginação.

        Evidentemente, este argumento serve a centenas de grandes vinhos modernizados. Serve mais ainda, para aqueles que precisam revitalizar a imagem por mil razões. O Chianti Classico fugiu de sua embalagem de cestinha, quando quis ampliar seu mercado para além das cantinas e das macarronadas de Domingo. Ele mesmo, aliás, criou uma restrição visualmente reconhecível como certificado de qualidade, o “Galo Nero”, prova de espaço geográfico restrito e condições de vinificação estabelecidas. Mas o produtor que não tem uma tradição própria para se apegar, uma base material conquistada e definida como ponto de partida, se vê obrigado a procurar outros valores para levar o seu público-alvo ao consumo por impulso, ou seja, a fazer com que a comunicação leve o consumidor à experimentação.

         Então, como fazer? Para quem não tem grandes tradições e já divulga sua marca há muito tempo, um novo produto deve ser tratado com a sua especificidade, atingindo camadas inferiores ou superiores do target a que ele se dirige. No caso citado acima do Pio Cesare, certamente a comunicação deveria ser mais jovial, com traços de modernidade. O caso contrário também é possível. Empresas como as brasileiras, que nasceram produzindo vinhos simples, podem aspirar legitimamente a ter um produto de classe. É o caso, só para citar o que primeiro me ocorre, da Salton, que resolveu investir nos produtos Desejo, Talento e linha Volpi para ganhar uma segunda dimensão que se sobrepôs na cabeça do consumidor, por mais que isso não seja tão fácil assim, como seu recentemente falecido presidente sabia reconhecer, com inteligência e humildade; pois para este consumidor, será sempre mais fácil assimilar um produto mais barato numa linha de produtos de uma marca Top, do que aceitar um produto mais caro numa linha de produtos com poucas pretensões. Como o produtor do produto mais popular e acessível do mercado – o Chalise – pode, ao mesmo tempo, ser o produtor do produto mais nobre – o Talento – perguntar-se-á o consumidor desconfiado… Uma solução tem sido agregar valor à marca por associação de tecnologia, arte e prestígio. Alguns gigantes da Europa e dos EUA como a Robert Mondavi e o Chateau Rotschild, saíram de seus países de origem para transformar, por exemplo, a Concha Y Toro – um conglomerado chileno que produzia apenas vinhos simples – em produtor de ícones como são Don Melchor e Almaviva, sem entrar no mérito da qualidade indiscutível destes produtos.

              Isto fica evidente quando o mercado saúda um automóvel como o Smart ou o Classe A e os reconhece como Mercedes Benz. E no sentido contrário, fica mais patente ainda, quando a VolksWagen – um carro que se notabilizou como barato, econômico, simples e durável – esporadicamente lança um Top de linha para concorrer com seus adversários alemães BMW e Audi. Por conta da sua imagem, a VW é penalizada, obrigada que é, a competir com preço abaixo dos adversários diretos e com isso, perder lucratividade, quase sempre não encontrando solução de continuidade para o projeto, até porque é sócia responsável de sua concorrente Audi.

            Um artifício de péssimo gosto, mas muito utilizado é o de usar de elementos muito similares ao dos usados pelo produto que serve de exemplo daquela faixa de consumo. Rótulos que praticamente imitam, nomes que lembram e se associam, títulos que enganam os incautos. Por aqui, ingenuamente e não por acaso, os primeiros produtores de vinho em garrafa de 750ml davam nomes franceses a seus vinhos. Era um tal de Chateau, de Condes e condados, que pareciam vinhos importados da França e não de Bento Gonçalves e arredores. Sem personalidade própria formada, usando de uvas européias de pouca qualidade, pretendiam induzir o consumidor a satisfazer-se com sua origem imaginada.

          Os australianos saltaram fora da tradição ritualística do vinho e racionalizaram sua comunicação é apresentação de maneira radical por mais que torçamos o nariz para as tampas de rosca de metal (screw cap) e rolhas sintéticas, fugindo dos preços cada vez mais exorbitantes das rolhas. Com isso, puderam atrair um público em nada ligado às tradições do vinho, pois eram estes principalmente neófitos que davam seus primeiros passos para ingressar neste novo mundo. E esta proposta invadiu os rótulos e contra-rótulos, os nomes de cada proposta de vinho, os anúncios e promoções. Hoje em dia, é fácil encontrar produtos do mundo inteiro com propostas de modernidade. Vinhos da África do Sul com rótulos que lembram bichos autóctones, rótulos de uma elegante simplicidade vindos da Itália ou da Espanha, propostas modernas que estão a milhas de distância da sisuda apresentação dos vinhos de Bordeaux.

         Para finalizar este artigo que parece não ter fim, é preciso sempre lembrar os rótulos dos Rothschild – mais uma vez citados aqui – que desde a década de 40 entregam seus rótulos anuais para um artista plástico consagrado por ano, como Picasso ou Niki de Saintfale. Será que este ineditismo tem a ver com o fato de ser este o único vinho que passo da categoria de segundo vinho para primeiro na qualificação dos Bordeaux que se mantém imutável desde 1855, sendo esta a única exceção. Parece não de todo despropositado pensar que é também esta marca pertencente a uma família que, melhor do que reis, condes e princesas, soube passar do mundo da aristocracia para o olhar concreto do capitalismo.

Mais um texto do amigo e colaborador, agora com participação quinzenal aos sábados, Breno Raigorodsky; 59, filósofo, publicitário, cronista, gourmet, juiz de vinho internacional e sommelier pela FISAR. Para acessar seus textos anteriores, clique em Crônicas do Breno, aqui do lado.

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